HIDROTERAPIA
A "hidroterapia"
originada das palavras gregas hydro (hydor, hydatos = água) e therapéia
(tratamento), tem apresentado grande prestÃgio como forma alternativa
de tratamento para pacientes portadores de deficiência fÃsica, incluindo-se
aqueles com doenças neurológicas. Entretanto, este não é um método
novo. Através de uma análise histórica verificamos que o tratamento
através da água passou por várias fases, alternando do modismo ao esquecimento.
O nosso
objetivo é o de realizar uma avaliação histórica, e deste modo apresentar
as técnicas mais modernas de terapia, sem dúvida responsáveis pelo seu
prestÃgio atual.
A origem
do uso da água como forma de terapêutica
Em
muitas culturas o uso da água foi relacionado ao misticismo e religiões.
O uso da hidroterapia como forma terapêutica data de 2400 aC pela cultura
Proto-indiana que fazia instalações higiênicas [3,13]. Era sabido que
anteriormente, EgÃpcios, AssÃrios e Muçulmanos usavam a água com propostas
curativas [3,7]. Há também documentação de que os Hindus em 1500 aC
usavam a água para combater a febre [3,7]. Arquivos históricos constam
que civilizações japonesas e chinesas antigas faziam menções de culto
(adoração) para a água corrente e faziam banhos de imersão por grandes
perÃodos de tempo [3,7]. Homero mencionou o uso da água para tratamento
da fadiga, como cura de doenças e combate da melancolia [3,7,15]. Na Inglaterra
as águas de Bath foram usadas anteriormente a 800 aC com propostas curativas
[7].
A era
da água curativa - 500 aC até 300 dC
Em
500 aC a civilização Grega deixou de ver a água como um ponto mÃstico
e começou a usá-la para tratamento fÃsico especÃfico [3,13]. Escolas
de medicina apareceram próximas a nascentes [13]. Hipócrates (460-375
aC) usou a imersão em água quente e fria para tratar muitas doenças,
incluindo espasmos musculares e doenças reumáticas [7,18]. Recomendava
ainda a hidroterapia para o tratamento de outras doenças incluindo icterÃcia,
paralisias e reumatismo [13].
Os
Lacedonios criaram em 334 aC o primeiro sistema público de banhos que
tornou-se parte integrante das atividades sociais [7].
A civilização
Grega foi a primeira a reconhecer estes banhos desenvolvendo centros perto
de nascentes naturais e rios e observando a relação entre os benefÃcios
para o corpo e a mente, através dos banhos e recreação[3,15].
Uso
da água durante o Império Romano
Mais
adiante, o Império Romano expandiu o sistema de banho desenvolvido pelos
Gregos [3]. Os Romanos se destacaram por sua habilidade na arquitetura
e construção. Como no sistema grego, os banhos romanos foram originalmente
usados por atletas para banhos e tinham por objetivos higiene e prevenção
das doenças [13]. O sistema romano envolvia uma série de banhos com diferentes
temperaturas: muito quente (caudarium), água morna (tepidarium) e muito
fria (frigidarium) [18]. Muitos destes banhos eram elaborados e realizados
em grandes áreas. Os banhos do Imperador Caracalla [12] cobriam uma milha
quadrada com uma piscina que media 1390 pés [7]. Os banhos começaram
a ser usados por mais pessoas e não somente por atletas. Os spas tornaram-se
centros de saúde, higiene, descanso para intelectuais, locais para exercÃcios
e recreação [3].
Por
volta de 330 dC, a primeira proposta dos banhos romanos foi a cura e tratamento
de doenças reumáticas, paralisias e lesões [3]. Entretanto o primeiro
modo foi o da terapia em "tanques de água" [10], consistindo em sentar
dentro do tanque e permanecer submerso sem se movimentar.
Uso
da água durante o declÃnio do Império Romano e Idade Média
Com
o declÃnio do Império Romano a natureza higiênica dos banhos romanos
começou a se deteriorar. Foi então que houve a proibição do uso de
banhos públicos pelo Cristia nismo, havendo então um declÃnio no uso
do sistemas de banhos Romanos [3]. Estes banhos elaborados foram desaparecendo
com o decorrer das décadas e por volta de 500 dC, eles deixaram de existir
[7]. A influência da religião durante a Idade Média conduziu para um
novo declÃnio no uso dos banhos públicos e da água como forma curativa.
O Cristianismo durante este tempo via o uso de forças fÃsicas incluindo-
se a água como um ato pagão[3,7]. Esta atitude pública persistiu até
o século XV, quando ressurgiu o interesse do uso da água como um meio
curativo [3].
Uso
da água durante 1600-1700
No
séculos 17 e 18, banhos com propostas higiênicas não eram aceitos na
prática. Entretanto o uso terapêutico da água começou a ressurgir gradualmente.
Em 1700, um fÃsico Alemão, Sigmund Hahn, e seus filhos usaram a água
para "dores nas pernas e comichão" e outros problemas médicos [13]. A
disciplina médica começou a se referir a "Hidroterapia" e foi então
definida por Wyman e Glazer como aplicação externa da água para tratamento
de qualquer forma de doença[20].
Alguns
fÃsicos na Inglaterra, Franca, Alemanha e Itália promoveram aplicações
internas, (que consistia em beber as águas) e externas (através de banhos
e compressas quentes e frias) para tratamento de várias doenças [15].
Baruch
[1] creditou à Grã Bretanha o berço do nascimento da hidroterapia cientÃfica,
com a publicação de John Floyer, em 1697, com o tratado: "An Inquiry
into the Right Use and Abuse of Hot, Cold and Temperature Bath". Floyer
dedicou muito da sua vida ao estudo da hidroterapia. Baruch acreditava
que o tratado de Floyer influenciou o professor Frederich Hoffmann da Universidade
de Heidelberg para incluir as doutrinas de Floyer em suas aulas. De Heidelberg
esses ensinamentos foram trazidos para a França [1]. Depois disso, o Dr.
Currie, de Liverpool, Inglaterra, escreveu trabalhos relatando sobre a
hidroterapia, fornecendo-lhe uma base cientÃfica através de seus experimentos
[13]. Estes trabalhos foram traduzidos em várias lÃnguas [1,19]. Embora
os trabalhos de Currie não fossem bem aceitos na Inglaterra, estes foram
bem valorizados na Alemanha [19].
John
Wesley, o fundador do Metodismo publicou um livro em 1747 entitulado "An
Easy and Natural way of Curing Most Diseases". Este livro falava sobre
o uso da água como uma forma de cura [3,7]. Os Escandinavos e Russos popularizaram
o uso de banhos frios após os banhos quentes. Os banhos quentes com vapor
precedidos por banhos frios tornaramse um tradição e foram populares
por muitas gerações [7].
Ressurgimento
da água como cura em 1800
O uso
da hidroterapia neste ponto da história prosseguiu com técnicas de tratamento
que incluÃam lençóis, compressas, fricção fria, banhos sedativos,
banhos de rede ("hammock") e de dióxido de carbono [1].
Em
1830, um Silesiano, Vicent Priessnitz, desenvolveu programas de tratamento
e usava primariamente banhos ao ar livre [3,18]. Estes tratamentos consistiam
em banhos frios, banhos de chuveiro e bandagens [7,8]. Devido ao Sr. Priessnitz
não possuir nenhuma credibilidade médica, ele não foi visto favoravelmente
por todos os fÃsicos deste tempo. A comunidade cientÃfica desacreditou-o
de seus programas de tratamento e viam-no como um empÃrico [3]. Esses
empÃricos eram chamados "Naturarezie" (Naturopatas) [7]. Alguns "hidroterapeutas",
neste tempo, viajaram para a Silésia para aprenderem as técnicas desenvolvidas
por Priessnitz [13].
Durante
este tempo, Sebastian Kniepp (1821-1897), um Bavário, modificou as técnicas
de tratamento de Priessnitz, alternando as aplicações frias com mornas
e depois banhos quentes parciais, ou seja, imergir parte do corpo em tanques
ou piscinas de diferentes temperaturas [3,7,8]. Os tratamentos da água
de Kniepp também consistiam em molhar o corpo com duchas e banhos de chuveiro
em diferentes temperaturas com finalidades curativas [13]. A "Kniepp Cure"
tornou-se popular na Alemanha, no Norte da Itália, Holanda e França e
é utilizada até hoje [8].
Winterwitz
(1834-1912), um professor AustrÃaco, foi o fundador da Escola de Hidroterapia
e Centro de Pesquisa em Viena; ele é lembrado como um dos mais devotos
profissionais no estudo da prática da hidroterapia, também chamada "hybratics".
Seu Instituto ficou conhecido como "Instituto de Hidroterapia". Ele foi
inspirado através dos trabalhos de Priessnitz e Currie que observaram
as reações dos tecidos na água em várias temperaturas [18,19]. Os estudos
de Winterwitz encontraram os fundamentos da hidroterapia e estabilizaram
bases fisiológicas da hidroterapia [3,19].
Alguns
dos alunos de Winterwitz, particularmente Kelogg, Buxbaum e Strasser, contribuÃram
significativamente para o estudo dos efeitos fisiológicos de aplicações
de calor e frio, a termo-regulação do corpo humano e a hidroterapia clÃnica
[13].
Um
dos primeiros americanos a se dedicar à pesquisa sobre hidroterapia foi
o Dr. Simon Baruch. Ele viajou para a Europa para estudar com o Dr. Winterwitz
e para conversar com aqueles que eram considerados empÃricos, como Prissnitz
[7]. Em seu livro "An Epitome of Hydrotherapy", Baruch [1] discutiu os
princÃpios e métodos do uso da água como tratamento de várias doenças
como febre tifóide, gripe, ensolação, tuberculose, neurastenia, reumatismo
crônico, gota e neurite. Baruch também publicou dois outros livros em
1893: "The Uses of Water in Modern Medicine" e "The Principles and Practice
of Hydrotherapy" [7]. Ele foi o primeiro professor da Columbia University
de New York (EUA) a ensinar hidroterapia.
Desenvolvimento
de Spas e hidroterapia nos EUA no século 18
Spa
é um local que é construÃdo numa nascente natural e é circundado por
beleza natural [5]. O mais antigo dos EUA foi Berkely Springs, West Virginia,
conhecido em 1761 como Warm Springs [12]. Muitas pessoas que sofriam de
reumatismo visitaram este lugar em que as águas eram ditas curativas.
Posteriormente este Spa tornou-se um grande hotel para 2000 pessoas [12].
O mais
famoso Spa da América foi o Saratoga Springs em New York. Em 1792 as águas
do Spa Saratoga foram consideradas como benefÃcio medicinal, e em 1794
foi construÃda uma estrutura com casa de banhos e chuveiros para o uso
de pessoas deficientes [12].
Spas
e hidroterapia no século 19
Em
1830 foi construÃda a primeira casa de banho em Hot Springs, Arkansas
[12]. A classe média tinha como objetivo o turismo e a parte social mais
do que a terapêutica.
Na
América escolas médicas começaram a ensinar os conceitos de hidroterapia.
Cada Spa tinha um médico e, geralmente, eles eram os proprietários [12].
Na América os Spas com objetivos de recreação e interação social eram
conduzidos em conjunto com a hidroterapia.
Logo
após a guerra civil, houve um aumento transitório do número de Spas
no Estados Unidos. Embora houvesse valor curativo e muitos médicos continuassem
mantendo o interesse pelo valor da hidrologia médica, no final do século
19, houve um declÃnio dos Spas.
Spas
no século 20
Baruch
foi considerado o melhor especialista em hidroterapia na América. Em 1907
ele ocupou a primeira cadeira de hidroterapia na Columbia University [12].
Embora a hidroterapia não fosse considerada tão importante, Baruch continuou
os seus estudos até 1930 [12]. Houve então um declÃnio da hidroterapia
que Baruch atribuiu à comunidade médica que consentia com a realização
de terapias sendo realizadas por pessoas não treinadas como "massagistas".
Em 1937 o presidente do Congresso Americano de Fisioterapia criou um comitê
para estudar as causas do declÃnio dos Spas nos Estados Unidos [12].
História
moderna da hidroterapia na Europa
Durante
o século 19 as propriedades da flutuação começaram a ser estudadas
para realizar exercÃcios em pacientes na água. Para Basmajian [2] a finalidade
dos Spas Europeus era a de começar a tratar distúrbios "locomotores"
e reumáticos. Em 1898, o conceito de hidroginástica foi introduzido por
Leydeen e Goldwater [3,7], que incluÃam a realização de exercÃcios
na água que serviram como precursores do conceito de reabilitação aquática.
A hidroginástica implicava na realização de exercÃcios na água, sendo
estes realizados por um profissional da saúde.
Em
1928, o fÃsico Water Blount descreveu o uso de um grande tanque com um
remoinho onde estava incluso um motor para ativar os jatos d'agua [12].
Este tornou-se conhecido como "Tanque de Hubbard". O tanque de Hubbard
foi utilizado inicialmente para realizar exercÃcios na água [12]. Este
auxiliava e assistia no desenvolvimento dos programas de exercÃcios na
piscina.
Durante
a primeira metade do século na Europa, os tratamentos foram baseadas em
duas técnicas: Bad Ragaz e Halliwick. Mais tarde foi apresentada uma técnica
adaptada denominada Watsu.
Hidroterapia
no Brasil
No
Brasil, a hidroterapia cientÃfica teve seu inÃcio na Santa Casa do Rio
de Janeiro, com banhos de água doce e salgada, com Artur Silva, em 1922,
que comemorou o centenário do Serviço de Fisiatria Hospitalar, um dos
mais antigos do mundo sob orientação médica. No tempo em que a entrada
principal da Santa Casa era banhada pelo mar, eles tinham banhos salgados,
aspirados do mar, e banhos doces, com a água da cidade [14].