ANATOMIA
Anatomia (do grego antigo ἀνατομή [anatome], "seccionar"), é o
ramo da biologia no qual se estudam a estrutura e organização dos seres
vivos, tanto externa quanto internamente.
Desenho
anatómico dos músculos humanos da Encyclopédie.Alguns autores usaram
este termo incluindo na anatomia igualmente o estudo das funções vitais
(respiração, digestão, circulação sanguínea, etc) para que o organismo
viva em equilíbrio com o meio ambiente. Segundo esta definição, mais
lata, a anatomia é de certa forma o equivalente à morfofisiologia (do
grego morphe, forma + logos, razão, funcionamento).
A anatomia
humana (ver abaixo), a anatomia vegetal e a anatomia comparada são especializações
da anatomia. Na anatomia comparada faz-se o estudo comparativo da estrutura
de diferentes animais (ou plantas) com o objetivo de verificar as relações
entre eles, o que pode elucidar sobre aspectos da sua evolução.
Em
termos mais restritos e clássicos, a anatomia confunde-se com a morfologia
interna, isto é, com o estudo da organização interna dos seres vivos,
o que implicava uma vertente predominantemente prática que se concretizava
através de métodos precisos de corte e dissecação (ou dissecção)
de seres vivos (cadáveres, pelo menos no ser humano), com o intuito de
revelar a sua organização estrutural.
O mais
antigo relato conhecido de uma dissecação pertence ao grego Teofrasto
(? – 287 a. C.), discípulo de Aristóteles. Ele a chamou de anatomia
(em grego, “anna temnein”), o termo que se generalizou, englobando
todo o campo da biologia que estuda a forma e a estrutura dos seres vivos,
existentes ou extintos. O nome mais indicado seria morfologia (que hoje
indica o conjunto das leis da anatomia), pois “anna temnein” tem, literalmente,
um sentido muito restrito: significa apenas “dissecar”.
Conforme
seu campo de aplicação, a anatomia se divide em vegetal e animal (esta,
incluindo o homem).
A anatomia
animal, por sua vez, divide-se em dois ramos fundamentais: descritiva e
topográfica. A primeira ocupa-se da descrição dos diversos aparelhos
(ósseo, muscular, nervoso, etc...) e subdivide-se em macroscópica (estudo
dos órgãos quanto a sua forma, seus caracteres morfológicos, seu relacionamento
e sua constituição) e microscópica (estudo da estrutura íntima dos
órgãos pela pesquisa microscópica dos tecidos e das células). A anatomia
topográfica dedica-se ao estudo em conjunto de todos os sistemas contidos
em cada região do corpo e das relações entre eles.
A anatomia
humana se define como normal quando estuda o corpo humano em condições
de saúde, e como patológica ao interessar-se pelo organismo afetado por
anomalias ou processos mórbidos.
O desejo
natural de conhecimento e as necessidades vitais levaram o homem, desde
a pré-história, a interessar-se pela anatomia. A dissecação de animais
(para sacrifícios) antecedeu a de seres humanos.
Alcméon,
na Grécia, lutando contra o tabu que envolvia o estudo do corpo humano,
realizou pesquisas anatômicas já no século VI a.C. (por isso muitos
o consideram o “pai” da anatomia). Entre 600 e 350 a.C. , Empédocles,
Anaxágoras, Esculápio e Aristóteles também se dedicaram a dissecações.
Foi, porém, no século IV a.C, com a escola Alexandrina, que a anatomia
prática começou a progredir. Na época, destacou-se Herófilo, que, observando
cadáveres humanos, classificou os nervos como sensitivos e motores, reconhecendo
no cérebro a sede da inteligência e o centro do sistema nervoso. Escreveu
três livros “Sobre a Anatomia”, que desapareceram. Seu contemporâneo
Erasístrato descobriu que as veias e artérias convergem tanto para o
coração quanto para o fígado.
Galeno,
nascido a 131 na Ásia Menor, onde provavelmente morreu em 201, aperfeiçoou
seus estudos anatômicos em Alexandria. Durante toda a Idade Média, foi
atribuída enorme autoridade a suas teoria, que incluíam errôneas transposições
ao homem de observações feitas em animais. Esse fato, mais os preconceitos
morais e religiosos que consideravam sacrílega a dissecação de cadáveres,
retardaram o aparecimento de uma anatomia científica. Os grandes progressos
da medicina árabe não incluíram a anatomia prática, também por questões
religiosas. As numerosas informações do “Cânon de Medicina”, de
Avicena, por exemplo, referem-se apenas à anatomia de animais.
No
século IX, o estudo do corpo humano voltou a interessar os sábios, graças
à escola de médica de Salerno, na Itália, e à obra de Constantino,
o Africano, que traduziu do árabe para o latim numerosos textos médicos
gregos. Logo depois, Guglielmo de Saliceto, Rolando de Parma e outros médicos
medievais enfatizaram a afirmação de Galeno segundo a qual o conhecimento
anatômico era importante para o exercício da cirurgia: “Pela ignorância
da anatomia, pode-se ser tímido demais em operações seguras ou temerário
e audaz em operações difíceis e incertas”.
O edito
de Frederico II, obrigando a escola de Nápoles a introduzir em seu currículo
o treinamento prático de anatomia (1240), foi decisivo para o desenvolvimento
dessa ciência. Cerca de meio século mais tarde, Mondino de Liuzzi executava
em Bolonha as primeiras dissecações didáticas de cadáveres, publicando
em 1316 um manual sobre autópsia.
O clima
geral do Renascimento favoreceu o progresso dos estudos anatômicos. A
descoberta de textos gregos sobre o assunto, e a influência dos pensadores
humanistas, levou a Igreja a ser mais condescendente com a dissecação
de cadáveres. Artistas como Michelangelo, Leonardo da Vinci e Rafael mostraram
grande interesse sobre a estrutura do corpo humano. Leonardo dissecou,
talvez, meia dúzia de cadáveres. O maior anatomista da época foi o médico
flamengo André Vesalius, um dos maiores contestadores da obscurantista
tradição de Galeno. Dissecou cadáveres durante anos, em Pádua, e descreveu
detalhadamente suas descobertas. Seu “De Humani Corporis Fabrica”,
publicado em Basiléia em 1543, foi o primeiro texto anatômico baseado
na observação direta do corpo humano e não no livro de Galeno. Este
método de pesquisa lhe dava muita autoridade e, não obstante as duras
polêmicas que precisou enfrentar, seus ensinamentos suscitaram a atenção
de médicos, artistas e estudiosos. Entre seus discípulos, continuadores
de sua obra, estão Gabriele Fallopio, célebre por seus estudos sobre
órgãos genitais, tímpanos e músculos dos olhos, e Fabrizio d’Acquapendente,
que fez construir o Teatro Anatômico, em Pádua (onde lecionou por cinqüenta
anos). A D’Acquapendente se deve, ainda, a exata descrição das válvulas
das veias.
A partir
de então, o desenvolvimento da anatomia acelerou-se. Berengario da Carpi
estudou o apêndice e o timo, e Bartolomeu Eustáquio os canais auditivos.
A nova anatomia do Renascimento exigiu a revisão da ciência. O inglês
William Harvey, educado em Pádua, combinou a tradição anatômica italiana
com a ciência experimental que nascia na Inglaterra. Seu livro a respeito,
publicado em 1628, trata de anatomia e fisiologia. Ao lado de problemas
de dissecação e descrição de órgãos isolados, estuda a mecânica
da circulação do sangue, comparando o corpo humano a uma máquina hidráulica.
O aperfeiçoamento do microscópio (por Leeuwenhoek) ajudou Marcello Malpighi
a provar a teoria de Harvey, sobre a circulação do sangue, e também
a descobrir a estrutura mais íntima de muitos órgãos. Introduzia-se,
assim, o estudo microscópico da anatomia. Gabriele Aselli punha em evidência
os vasos linfáticos; Bernardino Genga falava, então, em “anatomia cirúrgica”.
Nos
séculos XVIII e XIX, o estudo cada vês pormenorizado das técnicas operatórias
levou à subdivisão da anatomia, dando-se muita importância à anatomia
topográfica. O estudo anatômico-clínico do cadáver, como meio mais
seguro de estudar as alterações provocadas pela doença, foi introduzido
por Giovan Battista Morgani. Surgia a anatomia patológica, que permitiu
grandes descobertas no campo da patologia celular, por Rudolf Virchow,
e dos agentes responsáveis por doenças infecciosas, por Pasteur e Koch.
Recentemente,
a anatomia tornou-se submicroscópica. A fisiologia, a bioquímica, a microscopia
eletônica e positrônica, as técnicas de difração com raios X, aplicadas
ao estudo das células, estão descrevendo suas estruturas íntimas em
nível molecular.
Hoje
em dia há a possibilidade de estudar anatomia mesmo em pessoas vivas,
através de técnicas de imagem como a radiografia, a endoscopia, a angiografia,
a tomografia axial computadorizada, a tomografia por emissão de positrões,
a imagem de ressonância magnética nuclear, a ecografia, a termografia
e outras.
Anatomia
Humana
Partindo
de um ponto de vista utilitarista, a divisão mais importante da anatomia
é a anatomia humana, que pode ser abordada sob diferentes pontos de vista.
Do ponto de vista médico, a anatomia humana consiste no conhecimento da
forma exata, posição exata, tamanho e relação entre as várias estruturas
do corpo humano, enquanto características relacionadas à saúde. Esse
tipo de estudo é chamado anatomia descritiva ou topográfica; às vezes
é chamada também de antropometria.
Um
conhecimento preciso de todos os detalhes do corpo humano leva anos de
paciente observação para ser adquirido, e é um conhecimento possuído
por poucos. O corpo humano é de tal modo intricado que só uns poucos
anatomistas têm completo domínio sobre todos os seus detalhes; a maior
parte dos anatomistas, ainda, tem domínio apenas sobre uma parte do corpo
(cérebro, sistema respiratório, etc), ficando satisfeitos com um conhecimento
médio do restante do corpo. A anatomia topográfica é aprendida através
de exercícios repetidos de dissecação e inspeção de partes (cádaveres
especialmente destinados à pesquisa). A anatomia descritiva não é mais
ciência do que prática, e como tal, precisa ser exata e estar disponível
nos momentos de urgência.
Do
ponto de vista morfológico, a anatomia humana é um estudo científico
que tem por objetivo descobrir as causas que levaram as estruturas do corpo
humano a serem tais como são, e para tanto solicita ajuda às ciências
conhecidas como embriologia, biologia evolutiva, filogenia e histologia.
Anatomia
patológica é o estudo de órgãos defeituosos ou acometidos por doenças.
Já os ramos da anatomia normal com aplicações específicas, ou restritas
a determinados aspectos, recebem nomes como anatomia médica, anatomia
cirúgica, anatomia artística, anatomia de superfície. A comparação
entre as diferentes etnias humanas é parte da ciência conhecida como
antropologia